Livro Recursos Criminais


Olá!
Segue o link do livro RECURSOS CRIMINAIS PARA OS TRIBUNAIS SUPERIORES (STF E STJ): TODOS OS PRECEDENTES DO STF E DO STJ:


Deus abençoe você!
Álvaro Amorim.

A perversão socialista (por Roger Scruton)


Partilho com você conteúdo do livro "Como ser um conservador", do inglês Roger Scruton, publicado pela Editora Record, que trata, entre outros temas, sobre a mentira socialista:

"A verdadeira perversão é uma falácia peculiar que vê a vida em sociedade como aquela em que todo sucesso de um é o resultado do fracasso de outrem. Segundo essa falácia, todos os ganhos são pagos pelos perdedores. A sociedade é um jogo de soma zero em que existe um equilíbrio entre os custos e os benefícios, e a razão da vitória do vencedor é a derrota dos perdedores.

Tal falácia do "jogo de soma zero" se tornou uma afirmação clássica na teoria da mais-valia de Marx, que pretendia mostrar que o lucro do capitalista é resultado do confisco da força de trabalho do proletário [...]

O que quer que pensemos acerca da economia de livre mercado, ao menos ela nos convenceu de que nem todas as transações são jogos de soma zero. Acordos consensuais beneficiam ambas as partes: Por que outra razão decidiriam firmá-los ? E isso é tão verdadeiro em relação ao contrato salarial como o é em qualquer contrato de venda. [...]

Para certo tipo de temperamento, a derrota nunca é uma derrota para a realidade, mas sempre uma derrota para outra pessoa, muitas vezes agindo em consonância como membro de uma classe, tribo, conspiração ou clã. [...]

Parece-me que essa falácia do jogo de soma zero está na base da crença generalizada de que igualdade e justiça são ideias equivalentes - crença que parece ser a posição padrão dos socialistas e programada como tal nos cursos universitários de Filosofia Política. Poucas pessoas acreditam que se Jack tem mais dinheiro do que Jill isto é por si só um sinal de injustiça. Mas, se Jack pertence a uma classe social com dinheiro e Jill a outra que não o tem, então a forma de pensar do jogo de soma zero entra imediatamente em ação para persuadir as pessoas de que a classe social de Jack se tornou rica à custa daquela a que Jill pertence. Esse é o ímpeto por trás da teoria marxista da mais-valia. [...]

Para certo tipo de mentalidade igualitária, não importa que Jack tenha trabalhado para construir a sua riqueza e que Jill apenas descansava em uma ociosidade voluntária; não importa que Jack tenha talento e energia, ao passo que Jill não tenha nem um nem outro; não importa que Jack mereça o que tem, enquanto Jill nada mereça: a única questão importante é a classe e as desigualdades "sociais" que dela se originam. Conceitos como direito e mérito estão fora de cogitação e a igualdade, sozinha, define o objetivo.

A consequência foi o surgimento na política moderna de uma ideia completamente nova de justiça - que tem pouco ou nada a ver com direito, mérito, recompensa ou retribuição, e que está efetivamente desvinculada das ações e das responsabilidades dos indivíduos. [...]

Se uma pessoa rica fica mais rica cada vez que o pobre fica mais pobre, isso não quer dizer que as perdas do pobre são transferidas como lucros para o rico. [...]

No entanto, como uma tentativa de modificar a natureza humana e nos recrutar na busca do milênio, [o socialismo] foi uma fantasia perigosa, uma tentativa de realizar o Céu na Terra que inevitavelmente levaria ao Inferno. Hoje podemos ver isso claramente, visto que o mundo ocidental emerge da Guerra Fria e do pesadelo comunista."

Para você, leitor(a), tomar conhecimento do pesadelo comunista, assista ao vídeo inserido neste post.

Deus abençoe você!
Álvaro Amorim.
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Serenidade. Por que te zangas ?

Serve para mim, pode servir para você.
"Serenidade. - Por que te zangas, se zangando-te ofendes a Deus, incomodas os outros, passas tu mesmo um mau bocado... e, por fim, tens de acalmar-te? (Caminho, 8)
Isso mesmo que disseste, dize-o noutro tom, sem ira, e ganhará força o teu raciocínio, e sobretudo não ofenderás a Deus. (Caminho, 9)
Não repreendas quando sentes a indignação pela falta cometida. - Espera pelo dia seguinte, ou mais tempo ainda. - E depois, tranquilo e com a intenção purificada, não deixes de repreender.
- Conseguirás mais com uma palavra afetuosa do que com três horas de briga. - Modera o teu gênio. (Caminho, 10)
Quando te abandonares de verdade no Senhor, aprenderás a contentar-te com o que vier, e a não perder a serenidade, se as tarefas - apesar de teres posto todo o teu empenho e utilizado os meios oportunos - não correm a teu gosto... Porque terão “corrido” como convém a Deus que corram. (Sulco, 860)
Sendo para bem do próximo, não te cales, mas fala de modo amável, sem destemperança nem irritação. (Forja, 960)". (São Josemaria Escrivá).

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Álvaro Amorim.
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“Para ti, estudar é uma obrigação grave”

Bem atuais e verdadeiras estas palavras de São Josemaria Escrivá:
"Oras, mortificas-te, trabalhas em mil coisas de apostolado... mas não estudas. - Não serves, então, se não mudas. O estudo, a formação profissional, seja qual for, é obrigação grave entre nós. (Caminho, 334).
Para um apóstolo moderno, uma hora de estudo é uma hora de oração. (Caminho, 335).
Se tens de servir a Deus com a tua inteligência, para ti estudar é uma obrigação grave. (Caminho, 336).
Frequentas os Sacramentos, fazes oração, és casto... e não estudas... - Não me digas que és bom; és apenas bonzinho. (Caminho, 337)".

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Servir o Senhor e os homens

Hoje publico belíssimo texto de São Josemaria Escrivá, que tocou profundamente em meu coração.
Aliás, escrevendo agora esta introdução ao texto, recordo-me de como tem sido a missão do Santo Padre o Papa Francisco: tudo a ver com o que você vai ler agora:

“Servir o Senhor e os homens”
"Qualquer atividade - seja ou não humanamente muito importante - tem de converter-se para ti num meio de servir o Senhor e os homens: aí está a verdadeira dimensão da sua importância. (Forja, 684)
Não me afasto da mais rigorosa verdade se digo que Jesus continua ainda hoje a buscar pousada no nosso coração. Temos que lhe pedir perdão pela nossa cegueira pessoal, pela nossa ingratidão. Temos que lhe pedir a graça de nunca mais lhe fecharmos a porta de nossas almas.

O Senhor não nos oculta que a obediência rendida à Vontade de Deus exige renúncia e entrega, porque o amor não reclama direitos; quer servir. Ele percorreu primeiro o caminho. Jesus: como foi que obedeceste? Usque ad mortem, mortem autem crucis, até à morte, e morte de Cruz. Temos que sair de nós mesmos, complicar a vida,perdê-la por amor de Deus e das almas... Tu querias viver, e que nada te acontecesse; mas Deus quis outra coisa... Existem duas vontades: a tua vontade deve ser corrigida para se identificar com a Vontade de Deus, e não a de Deus torcida para se acomodar à tua.

Tenho visto, com alegria, muitas almas jogarem a vida - como Tu, Senhor, usque ad mortem! - para cumprir o que a vontade de Deus lhes pedia, dedicando seus esforços e seu trabalho profissional ao serviço da Igreja, pelo bem de todos os homens.

Aprendamos a obedecer, aprendamos a servir. Não há maior fidalguia do que entregar-se voluntariamente a servir os outros. Quando sentimos o orgulho que referve dentro de nós, a soberba que nos leva a pensar que somos super-homens, é o momento de dizer não, de dizer que o nosso único triunfo há de ser o da humildade. Assim nos identificaremos com Cristo na Cruz, sem nos sentirmos aborrecidos ou inquietos, nem com mau humor, mas alegres, porque essa alegria, o esquecimento de nós mesmos, é a melhor prova de amor. (É Cristo que passa, 19)".
(Fonte: www.opusdei.org.br).
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Álvaro Amorim.
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Papa Francisco à Cúria Romana (Governo da Igreja): A Cúria sofre de infidelidades ao Evangelho

Que coragem a do Papa Francisco! Dizer que o Governo da Igreja sofre de "Alzheimer espiritual"!
Se todo líder religioso tivesse essa coragem e humildade...
[Leia o texto da Rádio Vaticano: 
http://pt.radiovaticana.va/news/2014/12/22/papa_%C3%A0_c%C3%BAria_doen%C3%A7as_e_tenta%C3%A7%C3%B5es_para_exame_de_consci%C3%AAncia/1115679]

Deus abençoe você!
Álvaro Amorim.
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"Doutor Advogado" e "Doutor Médico": até quando ?

Sempre quis escrever sobre este tema, por isso reproduzo este excelente artigo, postado no site do SindJustiça Ceará, da jornalista, escritora e documentarista Eliane Brum, vencedora de mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem e autora do romance "Uma Dua".

Nota: Sou bacharel em Direito e advogado inscrito na OAB, e sempre concordei com o que está escrito a seguir. 

"Sei muito bem que a língua, como coisa viva que é, só muda quando mudam as pessoas, as relações entre elas e a forma como lidam com o mundo. Poucas expressões humanas são tão avessas a imposições por decreto como a língua. Tão indomável que até mesmo nós, mais vezes do que gostaríamos, acabamos deixando escapar palavras que faríamos de tudo para recolher no segundo seguinte. E talvez mais vezes ainda pretendêssemos usar determinado sujeito, verbo, substantivo ou adjetivo e usamos outro bem diferente, que revela muito mais de nossas intenções e sentimentos do que desejaríamos. Afinal, a psicanálise foi construída com os tijolos de nossos atos falhos. Exerço, porém, um pequeno ato quixotesco no meu uso pessoal da língua: esforço-me para jamais usar a palavra “doutor” antes do nome de um médico ou de um advogado.

Travo minha pequena batalha com a consciência de que a língua nada tem de inocente. Se usamos as palavras para embates profundos no campo das ideias, é também na própria escolha delas, no corpo das palavras em si, que se expressam relações de poder, de abuso e de submissão. Cada vocábulo de um idioma carrega uma teia de sentidos que vai se alterando ao longo da História, alterando-se no próprio fazer-se do homem na História. E, no meu modo de ver o mundo, “doutor” é uma praga persistente que fala muito sobre o Brasil. Como toda palavra, algumas mais do que outras, “doutor” desvela muito do que somos – e é preciso estranhá-lo para conseguirmos escutar o que diz.

Assim, minha recusa ao “doutor” é um ato político. Um ato de resistência cotidiana, exercido de forma solitária na esperança de que um dia os bons dicionários digam algo assim, ao final das várias acepções do verbete “doutor”: “arcaísmo: no passado, era usado pelos mais pobres para tratar os mais ricos e também para marcar a superioridade de médicos e advogados, mas, com a queda da desigualdade socioeconômica e a ampliação dos direitos do cidadão, essa acepção caiu em desuso”.

Em minhas aspirações, o sentido da palavra perderia sua força não por proibição, o que seria nada além de um ato tão inútil como arbitrário, na qual às vezes resvalam alguns legisladores, mas porque o Brasil mudou. A língua, obviamente, só muda quando muda a complexa realidade que ela expressa. Só muda quando mudamos nós.

Historicamente, o “doutor” se entranhou na sociedade brasileira como uma forma de tratar os superiores na hierarquia socioeconômica – e também como expressão de racismo. Ou como a forma de os mais pobres tratarem os mais ricos, de os que não puderam estudar tratarem os que puderam, dos que nunca tiveram privilégios tratarem aqueles que sempre os tiveram. O “doutor” não se estabeleceu na língua portuguesa como uma palavra inocente, mas como um fosso, ao expressar no idioma uma diferença vivida na concretude do cotidiano que deveria ter nos envergonhado desde sempre.

Lembro-me de, em 1999, entrevistar Adail José da Silva, um carregador de malas do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, para a coluna semanal de reportagem que eu mantinha aos sábados no jornal Zero Hora, intitulada “A Vida Que Ninguém Vê”. Um trecho de nosso diálogo foi este: 

- E como os fregueses o chamam?

- Os doutor me chamam assim, ó: “Ô, negão!” Eu acho até que é carinhoso.

- O senhor chama eles de doutor?

- Pra mim todo mundo é doutor. Pisou no aeroporto é doutor. É ó, doutor, como vai, doutor, é pra já, doutor....

- É esse o segredo do serviço?

- Tem que ter humildade. Não adianta ser arrogante. Porque, se eu fosse um cara importante, não ia tá carregando a mala dos outros, né? Sou pé de chinelo. Então, tenho que me botar no meu lugar.

A forma como Adail via o mundo e o seu lugar no mundo – a partir da forma como os outros viam tanto ele quanto seu lugar no mundo – contam-nos séculos de História do Brasil. Penso, porém, que temos avançado nas últimas décadas – e especialmente nessa última. O “doutor” usado pelo porteiro para tratar o condômino, pela empregada doméstica para tratar o patrão, pelo engraxate para tratar o cliente, pelo negro para tratar o branco não desapareceu – mas pelo menos está arrefecendo.

Se alguém, especialmente nas grandes cidades, chamar hoje o outro de “doutor”, é legítimo desconfiar de que o interlocutor está brincando ou ironizando, porque parte das pessoas já tem noção da camada de ridículo que a forma de tratamento adquiriu ao longo dos anos. Essa mudança, é importante assinalar, reflete também a mudança de um país no qual o presidente mais popular da história recente é chamado pelo nome/apelido. Essa contribuição – mais sutil, mais subjetiva, mais simbólica – que se dá explicitamente pelo nome, contida na eleição de Lula, ainda merece um olhar mais atento, independentemente das críticas que se possa fazer ao ex-presidente e seu legado.

Se o “doutor” genérico, usado para tratar os mais ricos, está perdendo seu prazo de validade, o “doutor” que anuncia médicos e advogados parece se manter tão vigoroso e atual quanto sempre. Por quê? Com tantas mudanças na sociedade brasileira, refletidas também no cinema e na literatura, não era de se esperar um declínio também deste doutor?

Ao pesquisar o uso do “doutor” para escrever esta coluna, deparei-me com artigos de advogados defendendo que, pelo menos com relação à sua própria categoria, o uso do “doutor” seguia legítimo e referendado na lei e na tradição. O principal argumento apresentado para defender essa tese estaria num alvará régio no qual D. Maria, de Portugal, mais conhecida como “a louca”, teria outorgado o título de “doutor” aos advogados. Mais tarde, em 1827, o título de “doutor” teria sido assegurado aos bacharéis de Direito por um decreto de Dom Pedro I, ao criar os primeiros cursos de Ciências Jurídicas e Sociais no Brasil. Como o decreto imperial jamais teria sido revogado, ser “doutor” seria parte do “direito” dos advogados. E o título teria sido “naturalmente” estendido para os médicos em décadas posteriores.

Há, porém, controvérsias. Em consulta à própria fonte, o artigo 9 do decreto de D. Pedro I diz o seguinte: “Os que frequentarem os cinco anos de qualquer dos Cursos, com aprovação, conseguirão o grau de Bacharéis formados. Haverá também o grau de Doutor, que será conferido àqueles que se habilitarem com os requisitos que se especificarem nos Estatutos, que devem formar-se, e só os que o obtiverem, poderão ser escolhidos para Lentes”. Tomei a liberdade de atualizar a ortografia, mas o texto original pode ser conferido aqui. “Lente” seria o equivalente hoje à livre-docente.

Mesmo que Dom Pedro I tivesse concedido a bacharéis de Direito o título de “doutor”, o que me causa espanto é o mesmo que, para alguns membros do Direito, garantiria a legitimidade do título: como é que um decreto do Império sobreviveria não só à própria queda do próprio, mas também a tudo o que veio depois?

O fato é que o título de “doutor”, com ou sem decreto imperial, permanece em vigor na vida do país. Existe não por decreto, mas enraizado na vida vivida, o que torna tudo mais sério. A resposta para a atualidade do “doutor” pode estar na evidência de que, se a sociedade brasileira mudou bastante, também mudou pouco. A resposta pode ser encontrada na enorme desigualdade que persiste até hoje. E na forma como essas relações desiguais moldam a vida cotidiana.

É no dia a dia das delegacias de polícia, dos corredores do Fórum, dos pequenos julgamentos que o “doutor” se impõe com todo o seu poder sobre o cidadão “comum”. Como repórter, assisti à humilhação e ao desamparo tanto das vítimas quanto dos suspeitos mais pobres à mercê desses doutores, no qual o título era uma expressão importante da desigualdade no acesso à lei. No início, ficava estarrecida com o tratamento usado por delegados, advogados, promotores e juízes, falando de si e entre si como “doutor fulano” e “doutor beltrano”. Será que não percebem o quanto se tornam patéticos ao fazer isso?, pensava. Aos poucos, percebi a minha ingenuidade. O “doutor”, nesses espaços, tinha uma função fundamental: a de garantir o reconhecimento entre os pares e assegurar a submissão daqueles que precisavam da Justiça e rapidamente compreendiam que a Justiça ali era encarnada e, mais do que isso, era pessoal, no amplo sentido do termo.

No caso dos médicos, a atualidade e a persistência do título de “doutor” precisam ser compreendidas no contexto de uma sociedade patologizada, na qual as pessoas se definem em grande parte por seu diagnóstico ou por suas patologias. Hoje, são os médicos que dizem o que cada um de nós é: depressivo, hiperativo, bipolar, obeso, anoréxico, bulímico, cardíaco, impotente, etc. Do mesmo modo, numa época histórica em que juventude e potência se tornaram valores – e é o corpo que expressa ambas – faz todo sentido que o poder médico seja enorme. É o médico, como manipulador das drogas legais e das intervenções cirúrgicas, que supostamente pode ampliar tanto potência quanto juventude. E, de novo supostamente, deter o controle sobre a longevidade e a morte. A ponto de alguns profissionais terem começado a defender que a velhice é uma “doença” que poderá ser eliminada com o avanço tecnológico.

O “doutor” médico e o “doutor” advogado, juiz, promotor, delegado têm cada um suas causas e particularidades na história das mentalidades e dos costumes. Em comum, o doutor médico e o doutor advogado, juiz, promotor, delegado têm algo significativo: a autoridade sobre os corpos. Um pela lei, o outro pela medicina, eles normatizam a vida de todos os outros. Não apenas como representantes de um poder que pertence à instituição e não a eles, mas que a transcende para encarnar na própria pessoa que usa o título.

Se olharmos a partir das relações de mercado e de consumo, a medicina e o direito são os únicos espaços em que o cliente, ao entrar pela porta do escritório ou do consultório, em geral já está automaticamente numa posição de submissão. Em ambos os casos, o cliente não tem razão, nem sabe o que é melhor para ele. Seja como vítima de uma violação da lei ou como autor de uma violação da lei, o cliente é sujeito passivo diante do advogado, promotor, juiz, delegado. E, como “paciente” diante do médico, como abordei na coluna anterior, deixa de ser pessoa para tornar-se objeto de intervenção.

Num país no qual o acesso à Justiça e o acesso à Saúde são deficientes, como o Brasil, é previsível que tanto o título de “doutor” permaneça atual e vigoroso quanto o que ele representa também como viés de classe. Apesar dos avanços e da própria Constituição, tanto o acesso à Justiça quanto o acesso à Saúde permanecem, na prática, como privilégios dos mais ricos. As fragilidades do SUS, de um lado, e o número insuficiente de defensores públicos de outro são expressões dessa desigualdade. Quando o direito de acesso tanto a um quanto a outro não é assegurado, a situação de desamparo se estabelece, assim como a subordinação do cidadão àquele que pode garantir – ou retirar – tanto um quanto outro no cotidiano. Sem contar que a cidadania ainda é um conceito mais teórico do que concreto na vida brasileira.

Infelizmente, a maioria dos “doutores” médicos e dos “doutores” advogados, juízes, promotores, delegados etc estimulam e até exigem o título no dia a dia. E talvez o exemplo público mais contundente seja o do juiz de Niterói (RJ) que, em 2004, entrou na Justiça para exigir que os empregados do condomínio onde vivia o chamassem de “doutor”. Como consta nos autos, diante da sua exigência, o zelador retrucava: “Fala sério....” Não conheço em profundidade os fatos que motivaram as desavenças no condomínio – mas é muito significativo que, como solução, o juiz tenha buscado a Justiça para exigir um tratamento que começava a lhe faltar no território da vida cotidiana.

É importante reconhecer que há uma pequena parcela de médicos e advogados, juízes, promotores, delegados etc que tem se esforçado para eliminar essa distorção. Estes tratam de avisar logo que devem ser chamados pelo nome. Ou por senhor ou senhora, caso o interlocutor prefira a formalidade – ou o contexto a exija. Sabem que essa mudança tem grande força simbólica na luta por um país mais igualitário e pela ampliação da cidadania e dos direitos. A estes, meu respeito.

Resta ainda o “doutor” como título acadêmico, conquistado por aqueles que fizeram doutorado nas mais diversas áreas. No Brasil, em geral isso significa, entre o mestrado e o doutorado, cerca de seis anos de estudo além da graduação. Para se doutorar, é preciso escrever uma tese e defendê-la diante de uma banca. Neste caso, o título é – ou deveria ser – resultado de muito estudo e da produção de conhecimento em sua área de atuação. É também requisito para uma carreira acadêmica bem sucedida – e, em muitas universidades, uma exigência para se candidatar ao cargo de professor.

Em geral, o título só é citado nas comunicações por escrito no âmbito acadêmico e nos órgãos de financiamento de pesquisas, no currículo e na publicação de artigos em revistas científicas e/ou especializadas. Em geral, nenhum destes doutores é assim chamado na vida cotidiana, seja na sala de aula ou na padaria. E, pelo menos os que eu conheço, caso o fossem, oscilariam entre o completo constrangimento e um riso descontrolado. Não são estes, com certeza, os doutores que alimentam também na expressão simbólica a abissal desigualdade da sociedade brasileira.

Estou bem longe de esgotar o assunto aqui nesta coluna. Faço apenas uma provocação para que, pelo menos, comecemos a estranhar o que parece soar tão natural, eterno e imutável – mas é resultado do processo histórico e de nossa atuação nele. Estranhar é o verbo que precede o gesto de mudança. Infelizmente, suspeito de que “doutor fulano” e “doutor beltrano” terão ainda uma longa vida entre nós. Quando partirem desta para o nunca mais, será demasiado tarde. Porque já é demasiado tarde – sempre foi."

Deus abençoe você!
Álvaro Amorim.

Imagem: http://www.freeimages.com/photo/875413.
Fonte do artigo: SindJustiça Ceará

Como passei no Concurso do TJ estudando após o edital (2ª parte)


Como eu disse na primeira parte deste artigo, eu precisava “operar” para Deus “cooperar”.
Sim, isto é muito importante: “A fé sem obras é morta” (Tiago 2, 26). Não adiantaria nada eu ter muita fé e ficar inerte, parado, sem estudar. A pedagogia de Deus é muito clara: ele age a partir da nossa ação. Ele quer assim. Deus detesta a preguiça. Por isto, no estudo para o Tribunal de Justiça do Ceará, pautei-me por uma sábia frase de Santo Inácio de Loyola, santo jesuíta como o nosso Papa Francisco: “Temos que fazer tudo como se tudo dependesse de nós, sabendo que tudo depende de Deus”.
Por isto, é essencial ter um método de estudo, um caminho para chegar de modo seguro ao objetivo.
Sei que todos temos características distintas, maneiras diferentes de aprender, mas gostaria de desmitificar algumas “tolices” (tirar o mito) que vi em fóruns de bate-papo sobre concursos ou mesmo em opiniões de alguns “cientistas” dos estudos.
Digo isso muito tranquilamente, pois o meu método serviu muito bem para mim. Não posso me esquecer de que, com a graça de Deus, fui aprovado dentro das 72 vagas, tendo estudado somente após o edital (81 dias de estudo), num concurso cujo número de inscritos foi de 27.005. Portanto, o método que Deus me inspirou foi bastante eficaz, o qual exponho agora, mediante a indicação de 7 coisas que fiz e 7 coisas que não se deve fazer, segundo o que penso:
O QUE FIZ
O QUE NÃO SE DEVE FAZER
Estudar doutrina: É um mito, uma mentira dizer que não se deve estudar doutrina. Fui educado lendo livros, fazendo resumos e explicando para mim mesmo o que estudei. Isto foi essencial para Direito Administrativo, pavor de muita gente em concurso. O livro do Marcelo Alexandrino e Vicente Paulo foi fundamental para a minha aprovação. Mas não só: Nas outras matérias específicas, a doutrina me deu a “lógica” para acertar questões difíceis.
Assistir às aulas de Informática, do João Antônio (EVP): Para mim, foi perda de tempo. Ele “enrola” muito: dos 30 minutos de aula, passa os últimos 5 pedindo para todo mundo apoiar o “site” dele, não é objetivo e ainda explicou errado uma questão sobre vírus (keyloggers), induzindo-me ao erro. Muito melhor é só resolver questões, não adianta estudar de outra forma, pois não dá para adivinhar o que vai ser cobrado em Informática.
Resolver questões: Realmente, além da doutrina, a resolução de questões é vital! Isto deixa o candidato familiarizado até com a linguagem das questões da prova. Mas, no meu caso, sempre procurava ler a doutrina sobre os temas que mais errava na resolução de questões, para entender mesmo.
Estudar quando se está com sono: Não adianta forçar o corpo, ele tem um limite físico, natural. Quando tinha sono, dormia mesmo. Não forçava. Repelia a ideia de que estava perdendo tempo e, quando acordava, rendia muito mais. Por isso, à noite, estudava das 18h30 às 23h30. Não estudava de madrugada, jamais! Contudo, nos fins-de-semana e feriados, estudava cerca de 12 horas por dia.
Estudar nos fins-de-semana e feriados: Como tive 81 dias de estudo para o concurso, não pude reservar um dia sequer de folga, pois precisava cumprir pelo menos 80% do programa para passar, o que realmente fiz. Dos 20% que não estudei, caiu muito pouco na prova, como Processo de Execução (só 1 questão em Processual Civil).   
Aulas em cursinho: Aqui é muito pessoal. Penso que se perde muito fazendo cursinho: No mínimo 1 hora de deslocamento (ida e volta), além das “piadinhas” tolas de muitos professores, dos comentários sobre o jogo do domingo etc. Respeito quem goste, mas, para mim, é mito! Tendo um bom material de estudo e sendo disciplinado, rende-se muito mais em casa, trancado no quarto de estudo.
Estudar de acordo com o peso das matérias: Nas duas últimas semanas, só estudei as matérias de peso 3 e abandonei as de peso 1. Foi a melhor coisa que eu fiz! Assim, fechei Constitucional e Processual Penal, metade dos pontos das matérias de peso 3.
Pensar muito na concorrência: Isto foi decisivo para mim! Concorrência é mito! Além de ter tido muita fé em Deus, que prometera a minha vaga e cumpriu mesmo, procurei repelir o pensamento no número de inscritos (27.005). Quando vinha a tentação, falava para mim mesmo: “Seremos eu, Deus e a prova, ninguém mais!”
Conversar com a família e explicar a necessidade da ausência durante a preparação para o concurso: Fundamental! Eu, minha esposa e minha filha (na época com 2 anos) conversamos e decidimos juntos que eu me ausentaria da convivência familiar temporariamente em vistas de um bem maior. Isto evitou discussões e incompreensões. Ao contrário, tive todo o apoio das duas, que hoje louvam a Deus comigo pela minha aprovação. É claro que a “Pequenininha” às vezes não compreendia muito, mas minha esposa sempre contornava a situação.
Estudar por resumos: Outro mito! Mais uma vez: respeito opiniões diversas, mas sinceramente, se vou ler doutrina, prefiro uma doutrina boa de verdade, com qualidade, densa, profunda! Acho perda de tempo ler resumos. É preferível escolher um capítulo importante de uma matéria peso 3 e estudá-lo. Fiz assim com “Princípios da Administração Pública” e acertei todas as questões sobre esta matéria na prova.
Estudar a todo tempo: Até no banheiro, lia as leis no celular. Não se pode perder tempo quando se estuda só depois do edital.
Estudar em grupo: Para mim, não dá mesmo! Respeito quem pensa diferente, mas vejo que o estudo deve ser individual e que, diante de dúvidas, o candidato tem todos os meios, sobretudo a Internet, para compreender a matéria.
Estudar no dia da prova: Outro mito que derrubei com a minha experiência pessoal. Como minha prova foi à tarde, estudei a manhã inteira, até a hora do almoço. Acertei 2 questões na prova com este estudo. Existem “cientistas” dos estudos que não recomendam, pois o candidato pode ficar tenso, nervoso! Olha, se a pessoa está tensa, não é por causa do estudo, é por outro fator, o qual deve ser identificado e posto sob a luz de Deus, que dissipa todas as trevas. Pode ser por baixa autoestima, por achar que não tem condições pessoais para passar. O que isto tem a ver com o estudo ? Nada! Neste caso, é orar, ver-se como filho de Deus e entregar esse medo ao Coração de Jesus, lugar da misericórdia, e estudar mesmo! Deus quer que tenhamos coragem, que enfrentemos nossos medos!
Ler livros de autoajuda: Muita gente tem ganhado muito dinheiro com isto! Para mim, esses livros são mitos! O autoconhecimento é muito melhor! A partir de uma experiência verdadeira com Deus, o candidato deve se observar, procurando identificar suas características fortes e as fracas para o estudo. Com coragem, deve perguntar a Deus: “Senhor, como posso melhorar neste aspecto ?” Tenha certeza de que Deus falará à sua consciência, e você corrigirá a tempo alguma fraqueza, transformando-a em força para o concurso. Procedi assim com Direito Processual Penal, que odiava. Deus retirou do meu coração a rejeição à matéria, mostrando-me que há uma certa “lógica” no tema: Acertei todas as questões de Processual Penal da prova.
  
Deus abençoe você!
Álvaro Amorim.
P.S.: No dia 9 de janeiro de 2015, uma sexta-feira, dia sempre votivo ao Sagrado Coração de Jesus, portanto 10 meses e 21 dias após o início do meu estudo para este concurso (19/2/2014), tomei posse e comecei a exercer o cargo.

Imagem: http://www.freeimages.com/photo/1275249.
Nas citações desta obra ou de parte dela, inclua obrigatoriamente:
Autor: Álvaro Amorim, em http://anunciodaverdade.blogspot.com

Como passei no Concurso do TJ estudando após o edital (1ª parte)

"Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam, daqueles que são chamados segundo o seu desígnio" (Rm 8, 28).
Cada vez mais constato que esta palavra tem sido o lema da minha vida.
Assim foi também no Concurso do Tribunal de Justiça.
Na verdade, posso tranquilamente afirmar que a cooperação de Deus neste caso foi algo bastante extraordinário, o que eu tenho chamado de “milagre”.
Isto porque havia aproximadamente 7 (sete) anos que eu não estudava para concurso. Estava parado mesmo, só trabalhando e me dedicando à família, realidade de muitos que agora leem este artigo. Mas nunca deixei morrer o desejo de ingressar no serviço público, minha vocação profissional. Só não dava passos nesta direção, isto é, não “operava”, para Deus “cooperar”.
Até que veio um “empurrãozinho” divino.
Era o dia 17 de fevereiro deste ano de 2014, uma segunda-feira. Navegando em um “site” de um jornal, vi a notícia de que o Tribunal de Justiça do Ceará lançara o edital para a realização de concurso público para cargos de servidor. Imediatamente, senti um impulso na minha alma, no meu coração, e disse a mim mesmo: Vou fazer este concurso, agora é a minha vez. Eu vou passar!
Nesse dia 17 e no dia 18, li o edital, delimitei as matérias, organizei o material e elaborei o meu horário de estudo (noutro post, falarei mais sobre meu método de estudo), e no dia 19 de fevereiro de 2014, uma quarta-feira, iniciei a minha preparação para o Concurso do Tribunal de Justiça. Deste dia até a data da prova (11 de maio de 2014), foram precisamente 81 dias.
Como, a meu ver, o normal era que eu não passasse (pouquíssimo tempo de estudo, 7 anos sem estudar para concurso, a concorrência com certeza seria grande etc.), decidi não viver esse momento apenas naturalmente, mas sobrenaturalmente.
Fiz alguns valorosos amigos evangélicos e ateus no meu último trabalho, pessoas de boa vontade, que amam a Deus amando o próximo, por isto respeito sua opinião acerca do que vou falar agora, mas eu mesmo sou testemunha disto: Supliquei, em vistas da realidade da minha família naquele momento, que Nossa Senhora de Fátima intercedesse junto ao Coração de Jesus para que eu passasse, e atribuo minha aprovação a uma intervenção divina, a pedido de Nossa Senhora.
Orava também pedindo que caísse na prova o que eu tinha estudado e que, diante de questões cuja matéria não estudei, eu conseguisse, pela lógica, acertar.
Tudo isso foi necessário e decisivo, haja vista a concorrência para o meu cargo: 27.005 candidatos para 80 vagas (sendo 8 vagas para pessoas com deficiência). Isto mesmo: 337,56 candidatos por vaga! E não se pode esquecer: apenas 81 dias de estudo!
Percebi muitos sinais de que Deus tinha guardado a minha vaga no decorrer desse tempo.
Ao estudar, não tinha praticamente dúvidas, assimilava tudo, parecia que eu vinha estudando há muito tempo, inclusive matérias que só estudei na faculdade (há bastante tempo atrás), como Direito Processual Penal.
Outra coisa: em nenhum momento eu admitia a possibilidade de não passar, nem falava nisso. A fé tomou todo o meu coração.
Deus também se valeu de algumas pessoas nessa empreitada, sobretudo da família.
Era “visível” a presença dele em cada momento.
Até nos momentos mais desafiantes, mais dolorosos, o Senhor estava comigo. Lembro-me de como eu sofria quando, trancado no quarto de estudo, à noite, minha filha de 2 anos “escrevia” (fazia aqueles belos risquinhos) num pedaço de papel e colocava por debaixo da porta, dizendo: “Um cartão pra você, papai!” Aquilo dilacerava minha alma: não poder brincar com minha filha, não conviver com ela por várias noites e fins-de-semana e vê-la, dessa maneira, pedir a minha presença! Só o Coração de Jesus, com a intercessão da Mãe Santíssima, me fazia suportar esse desafio imenso!
E foi precisamente este “serzinho” puro, inocente, cheio do amor de Deus que o Senhor utilizou para consolidar a minha fé na reta final dos estudos e assim partir para a vitória! Isto ocorreu durante a oração semanal da minha família (eu, minha esposa e minha filha), na semana da prova.
Em determinado momento da oração, minha esposa pediu que nossa filha lhe entregasse a Bíblia. Quando minha filha pegou a Palavra de Deus, abriu-se na passagem que diz: “Quando saíres para guerrear contra teus inimigos, se vires cavalos e um povo mais numeroso do que tu, não fiques com medo, pois contigo está o Senhor teu Deus, que te fez subir da terra do Egito” (Dt 20, 1).
Não deu para aguentar: Chorei como um menino! Era a confirmação de que o Senhor estava sim comigo, para que eu enfrentasse um “povo mais numeroso” (27.004 candidatos), com muitos cavalos (maior e melhor preparação).
Oramos muito naquela noite, e parti para a prova como um guerreiro ungido pelo Senhor!
No dia da prova, um domingo da vitória de Cristo sobre a morte, entreguei ao Senhor, pelas mãos de minha mãe Nossa Senhora de Fátima, a resolução de cada questão. E lá na prova, sentado, antes de o fiscal autorizar o início, conversava com Deus, sem saber que o maior presente ainda me seria dado pelo Senhor: Quando o fiscal autorizou, e eu abri a prova, fui logo ver o tema da prova discursiva (redação), que valia 40 dos 220 pontos da prova, decisiva para a aprovação de qualquer candidato.
Lembra-se do lema da minha vida ?
"Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam, daqueles que são chamados segundo o seu desígnio" (Rm 8, 28). E o Senhor mais uma vez cooperou para o meu bem!
O tema da redação foi “tipos de licitação”, meu trabalho todo santo dia! Nem estudei esse tema, pois sei essa matéria por trabalhar com ela diariamente. Contive o choro e disse: Foi você, Nossa Senhora, que pediu ao Coração de Jesus! Obrigado, Mãezinha!
Quando saiu o resultado, me tranquei no quarto de estudo e coloquei, numa tabela que tinha feito antes, as notas de todos os candidatos, para calcular as médias e classificar da maior para a menor. Feito isto, lá estava meu nome dentro das vagas! Meu Deus, 27.005 candidatos para somente 80 vagas! Que milagre, Senhor! Corri para debaixo do quadro do Coração de Jesus, que está há várias gerações na minha família, e chorei muito! Minha esposa e minha filha, ao ouvirem meu choro, juntaram-se a mim num louvor, num agradecimento a Deus que brotou do mais profundo do nosso coração! Naquela noite, fomos dormir 1h da madrugada.
É, meu irmão, minha irmã, viver com Deus é a melhor coisa da vida! Tudo ganha sentido!
Mais uma vez, agradeço a você, Nossa Senhora de Fátima, e a você, Sagrado Coração de Jesus, por amor tão grande a mim e à minha família! E afirmo, porque sou testemunha viva:
"Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam, daqueles que são chamados segundo o seu desígnio" (Rm 8, 28).
Deus abençoe você!
Álvaro Amorim.
P.S.: No dia 9 de janeiro de 2015, uma sexta-feira, dia sempre votivo ao Sagrado Coração de Jesus, portanto 10 meses e 21 dias após o início do meu estudo para este concurso (19/2/2014), tomei posse e comecei a exercer o cargo.

Imagem: http://www.tjce.jus.br/principal/default.asp
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Oração

Muita gente escreve muito sobre oração. Penso que é pouco provável que se estabeleçam regras rígidas de oração, com formalidades mil.
Prefiro acolher o que disse uma Pequenina de Deus, palavras tão sábias que foram tomadas por empréstimo pelo Catecismo da Igreja ao definir oração (§ 2558):

"Para mim, a oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado para o céu, é um grito de gratidão e de amor, tanto no meio da tribulação como no meio da alegria" (Santa Teresinha) (Grifei).
Hoje orei assim. Meu coração, num impulso, mergulhou no Coração de Jesus.
Ajudaram-me o Evangelho (Mt 7, 21.24-27) e esta bela canção do Walmir Alencar.

Deus abençoe você!
Álvaro Amorim.
Fontes: Catecismo da Igreja Católica, § 2558; youtube.com
Imagem: http://www.sxc.hu/photo/956803
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Papa Francisco fala sobre temas polêmicos

Você quer saber o que pensa o Papa Francisco sobre temas polêmicos ?
Clique aqui e assista à entrevista que ele concedeu ao repórter Gerson Camarotti, da Globo News.
Deus abençoe você! Álvaro Amorim.
Imagem: http://www.blogdoconsa.com/2013/04/a-gargalhada-do-papa.html. 
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Fernão Capelo Gaivota

Diante do novo de Deus em minha vida, diante do novo do Espírito na Igreja, com a eleição de Francisco, a quem dedico este post, reproduzo um trecho de um livro que ficou em minh´alma e que emerge forte agora: "Fernão Capelo Gaivota", do aviador Richard Bach.

"Era de manhã e o novo Sol cintilava nas rugas de um mar calmo.
A dois quilômetros da costa, um barco de pesca acariciava a água. Subitamente, os gritos do Bando da Alimentação relampejaram no ar e despertaram um bando de mil gaivotas, que se lançou precipitadamente na luta pelos pedacinhos de comida. Amanhecia um novo dia de trabalho.
Mas lá ao fundo, sozinho, longe do barco e da costa, Fernão Capelo Gaivota treinava. A trinta metros da superfície azul brilhante, baixou os seus pés com membranas, levantou o bico e tentou a todo custo manter suas asas numa dolorosa curva. A curva fazia com que voasse devagar, e então sua velocidade diminuiu até que o vento não fosse mais que um ligeiro sopro, e o oceano com que tivesse parado, abaixo dele. Cerrou os olhos para se concentrar melhor, susteve a respiração e forçou... só... mais... um... centímetro... de... curva... Mas as penas levantaram-se em turbilhão, atrapalhou-se e caiu.
Como se sabe, as gaivotas nunca se atrapalham, nunca caem. Atrapalhar-se no ar é para elas desgraça e desonra.
Mas Fernão Capelo Gaivota — sem se envergonhar, abrindo outra vez as asas naquela trêmula e difícil curva, parando, parando... e atrapalhando-se outra vez! — não era um pássaro vulgar.
A maior parte das gaivotas não se preocupa em aprender mais do que os simples fatos do voo — como ir da costa à comida e voltar. Para a maioria, o importante não é voar, mas comer. Para esta gaivota, contudo, o importante não era comer, mas voar. Antes de tudo o mais, Fernão Capelo Gaivota adorava voar.
Esta maneira de pensar não o popularizava entre os outros pássaros, como veio a descobrir. Até os próprios pais se sentiam desanimados ao vê-lo passar dias inteiros fazendo centenas de voos rasantes, sozinho.
Ele não sabia por que, por exemplo, quando voava sobre a água a uma altitude menor que a metade do comprimento das suas asas aberta, podia manter-se no ar mais tempo, com menos esforço. Esses voos rasantes não terminavam com a habitual amaragem de pés hirtos que feriam a água. Ele amarava de mansinho, os pés apertados contra o corpo, deixando apenas um rasto borbulhante. Quando começou a treinar as aterragens deslizantes na praia, e a contar em passos o comprimento do rasto na areia, os pais começaram a ficar deveras desanimados.
— Por quê, Fernão, POR QUÊ? — perguntava-lhe a mãe. — Por que é que lhe custa tanto ser como o resto do bando? Por que você não deixa os voos baixos para os pelicanos, para o albatroz? Por que não come? Filho, você está que é só pena e osso!
— Não me importo de estar só pena e osso, mãe. Eu só quero saber o que posso fazer no ar e o que não posso, é tudo. Só quero saber isso.
— Escute, Fernão — disse-lhe o pai com bondade. — O inverno não está longe.
Haverá poucos barcos e o peixe da superfície irá para zonas mais profundas. Se você tem necessidade de estudar, então estude o alimento e como consegui-lo. Esta história dos voos está muito certa, mas você tem de pensar que não pode comer um voo rasante. Não esqueça que a razão por que você voa é comer.
Fernão baixou a cabeça, obediente. Nos dias seguintes tentou comportar-se como as outras gaivotas; tentou de fato, gritando e lutando como o resto do bando, em volta dos pontões e dos barcos de pesca, mergulhando sobre restos de peixe e de pão. Mas não conseguiu.
"Não faz sentido", pensava ele largando deliberadamente uma anchova suculenta, que lhe custara bastante a ganhar, aos pés de uma velha gaivota esfomeada que o acossava. "Não faz sentido... Eu podia ganhar todo este tempo aprendendo a voar. Há tanto que aprender!"
Não tardou muito que Fernão Gaivota voltasse a pairar no céu, sozinho, longínquo, esfomeado, feliz, aprendendo.
O tema era a velocidade. Ao cabo de uma semana de prática, conseguira aprender mais sobre velocidade do que a gaivota viva mais rápida.
A trezentos metros de altura, batendo as asas com toda a força de que era capaz, lançou-se numa vertiginosa picada direta às ondas e aprendeu por que razão as gaivotas não fazem vertiginosos mergulhos picados. Em escassos seis segundos passou a mover-se a cento e vinte quilômetros por hora, velocidade que desequilibra a asa no arranque para a subida.
Vez após vez sucedeu o mesmo. Por mais cuidadoso que fosse, trabalhando até o limite da sua capacidade, perdia o controle em alta velocidade.
Subir a trezentos metros, dando primeiro tudo em frente; depois, dobrar o corpo e cair em mergulho vertical. Mas, sempre que tentava subir outra vez, a asa esquerda atrapalhava-se e fazia-o rolar violentamente para a esquerda. Ao tentar recuperar, era a asa direita que se atrapalhava, e então tremeleava como as chamas, num selvático movimento desordenado de parafuso, girando para a direita.
Não conseguiu ser suficientemente cuidadoso naquele arranque. Dez vezes tentou e dez vezes alcançou os cento e vinte quilômetros por hora, acabando sempre numa agitada massa de penas descontroladas que ia esmagar-se na água.
"A chave", pensou por fim, "deve estar em manter as asas paradas nas grandes velocidades — batê-las até chegar aos cento e vinte e depois pará-las."
Tentou outra vez a seiscentos metros, lançando-se no mergulho com o bico espetado, as asas bem abertas e firmes a partir do momento em que ultrapassou os cento e vinte quilômetros por hora. Precisou de uma força tremenda, mas deu resultado. Em dez segundos transformou-se numa mancha no céu, a cento e trinta quilômetros por hora.
Fernão acabava de estabelecer um recorde mundial de velocidade para gaivota!
Mas a vitória durou pouco. No instante em que tentou a horizontal, no instante em que modificou o ângulo das asas, projetou-se outra vez naquele terrível desastre descontrolado, e, a cento e trinta quilômetros, foi como se tivesse sido atingido por dinamite. Fernão Gaivota explodiu a meia altura e esmagou-se num mar duro como tijolo.
Quando voltou a si, a noite já era velha. Flutuava à superfície negra do oceano, encharcado em luar. As asas eram enormes e esfarrapadas barras de chumbo, mas o fracasso pesava-lhe ainda mais nas costas. Desfalecido, desejou que o peso fosse bastante para o arrastar docemente até o fundo, e acabar com tudo.
Ao afundar-se na água, uma estranha voz cavernosa soou dentro dele. "Não há nada a fazer. Sou uma gaivota. A minha natureza limita-me. Se estivesse destinado a aprender tanto acerca do voo, teria mapas em vez de miolos. Se estivesse destinado a voar a altas velocidades, teria asas curtas como o falcão e viveria de ratos em vez de peixes. O meu pai tem razão. Devo esquecer esta loucura. Devo regressar ao seio do bando e contentar-me com o que sou, uma pobre e limitada gaivota."
A noite sumiu-se, e Fernão acordou. Uma gaivota passa a noite em terra... A partir desse momento, jurou tornar-se uma gaivota normal. Seriam todos felizes.
Morto de cansaço, arrancou-se da água densa e voou para terra, grato pelo que aprendera: a forma de poupar trabalho voando a baixa altitude.
"Mas não!", pensou. "O que eu era acabou-se; acabou-se tudo o que aprendi. Sou uma gaivota como outra qualquer e voarei como uma delas." Assim, subiu dolorosamente a trinta metros e bateu as asas com mais força, apressando-se a chegar a terra. Sentiu-se melhor depois da decisão de ser apenas mais um do bando. Daí em diante não haveria mais laços a prendê-lo à força que o levara a aprender, não haveria mais desafios nem mais fracassos. E era bom deixar de pensar, e voar no escuro em direção às luzes da praia.
"ESCURO!" A voz irreal estalou em alarme. "AS GAIVOTAS NUNCA VOAM NO ESCURO!"
Mas Fernão não prestava atenção e não a ouvia. "É bom", pensava. "A Lua e as luzes brincando na água, atirando a pequenos lampejos, e tudo tão calmo, tão parado..."
"Desça! As gaivotas nunca voam no escuro! Se estivesse destinado a voar no escuro teria olhos de coruja! Teria mapas em vez de miolos! Teria as asas curtas do falcão!"
Envolto na noite, a trinta metros no ar, Fernão Capelo Gaivota... pestanejou. A dor e as resoluções desvaneceram-se.
Asas curtas. AS ASAS CURTAS DO FALCÃO!
"É isso! Como fui louco! Tudo o que preciso é de uma asinha curta, tudo o que preciso é fechar as asas o mais que puder e voar só com as pontas! ASAS CURTAS!"
Subiu a seiscentos metros acima do negro mar e, sem pensar um momento no fracasso ou na morte, apertou as asas de encontro ao corpo, deixou que apenas as pontas das asas cortassem o vento como lâminas de punhal e mergulhou na vertical.
O vento era rugido de um monstro na sua cabeça. Cem quilômetros por hora, cento e trinta, cento e oitenta, e ainda mais depressa. A tensão nas asas, agora que se deslocava à velocidade de duzentos quilômetros por hora, não chegava a ser tão forte como antes, a cento e trinta, e bastou-lhe mover só um bocadinho a ponta das asas para sair da queda sem dificuldade e disparar por cima das ondas como uma bala cinzenta de canhão apontada à Lua.
Semicerrou os olhos para se proteger do vento e regozijou-se. Duzentos quilômetros por hora! E controlados! Se mergulhasse de mil e quinhentos metros, em vez de seiscentos, que velocidade...
As promessas de momentos antes estavam esquecidas, varridas por aquele enorme vento rápido. E, contudo, não sentia remorso por não cumprir as promessas que fizera a si próprio. "Essas promessas são só para as gaivotas que aceitam o vulgar. Quem conseguiu chegar à excelência da sua aprendizagem não tem necessidade desse tipo de promessa."
Quando o sol começou a romper, Fernão Gaivota treinava outra vez. Vistos de mil e quinhentos metros, os barcos de pesca eram pontinhos escuros no azul liso da água, e o Bando da Alimentação, uma apagada nuvem de átomos de poeira, movendo-se em círculo.
Ele estava vivo, ligeiramente trêmulo de prazer, orgulhoso de que o seu medo estivesse dominado. Então, sem cerimônias, cingiu-se com as asas anteriores, estendeu as curtas, colocando as pontas em ângulo, e mergulhou diretamente em direção ao mar.
Quando passou os mil e duzentos metros, deslocava-se à velocidade máxima e o vento era um sólido muro de som contra o qual não podia mover-se mais depressa. Voava agora em pleno mergulho, à velocidade de trezentos e vinte quilômetros por hora. Engolia em seco, sabendo que se as asas se abrissem àquela velocidade ficaria reduzido a um milhão de pequenos fragmentos de gaivota. Mas a velocidade era poder, e era alegria e beleza pura. Começou o desvio a trezentos metros. As pontas das asas vibravam e ressoavam contra o vento gigante. O barco e a multidão de gaivotas cresciam à velocidade de um meteoro e lançavam-se diretamente no seu caminho.
Não podia parar; e ainda nem sabia como iria virar àquela velocidade.
A colisão seria morte instantânea.
Era melhor fechar os olhos.
Aconteceu então nessa manhã, logo a seguir ao nascer do sol, que Fernão Gaivota atravessou o Bando da Alimentação como uma bala, riscando o céu a trezentos quilômetros por hora, de olhos fechados, num tremendo rugido de vento e penas. A Gaivota da Fortuna sorriu-lhe desta vez e ninguém foi ferido.
Na altura em que espetou o bico para o céu, ainda flechava o ar a duzentos e quarenta quilômetros por hora. Quando por fim diminuiu para trinta e voltou a abrir as asas, o barco era apenas uma migalha no mar, mil e duzentos metros abaixo.
Na sua mente latejava o triunfo. Velocidade máxima! Uma gaivota a TREZENTOS E VINTE QUILÔMETROS POR HORA! Era uma vitória, o maior momento da historia do bando; e, nesse mesmo momento, nasceu uma nova era na vida de Fernão Gaivota. Voando para a sua solitária zona de treino, encolhendo as asas para um mergulho de dois mil e quatrocentos metros, dispôs-se imediatamente a descobrir como virar.
O movimento de um centímetro numa única pena da ponta da asa produzira uma curva larga e suave, a tremenda velocidade, descobriu ele. Contudo, antes de descobrir isto, verificou que, se movesse mais de uma pena àquela velocidade, era disparado em movimento giratório como uma bala de espingarda... E Fernão fez as primeiras acrobacias aéreas de uma gaivota viva.
Nesse dia não perdeu tempo conversando com as outras gaivotas e voou até depois do pôr-do-sol. Descobriu o "loop" (Este termo e os que o seguem designam movimentos de acrobacia aerodinâmica — N. do T.), o "slow roll", o "point roll", o "inverted spin", o "gull bunt", o "pinwheel".
Quando Fernão Gaivota se juntou ao bando na praia era já noite cerrada. Estava tonto e tremendamente cansado. Apesar disso, não resistiu ao prazer de voar num "loop" para terra e de fazer um "snap roll" antes de aterrar. "Quando souberem do triunfo", pensava, "ficarão loucos de alegria. Como vale a pena agora viver! Em vez da monótona labuta de procurar peixe junto dos barcos de pesca, temos uma razão para estar vivos! Podemos subtrair-nos à ignorância, podemos encontrar-nos como criaturas excelentes, inteligentes e hábeis. Podemos ser livres! PODEMOS APRENDER A VOAR!"
Os anos vindouros brilhavam e trauteavam promessas.
As gaivotas estavam reunidas em conselho quando ele aterrou, e, segundo parecia, já estavam em reunião havia algum tempo. Na realidade, estavam à espera dele.
— Fernão Capelo Gaivota! É chamado ao centro! — As palavras do Mais Velho foram pronunciadas no tom mais solene. Ser chamado ao centro só podia significar grande vergonha ou grande honra. Ser chamado ao centro por honra era a maneira como eram designados os principais chefes das gaivotas. "Claro", pensou, "o Bando da Alimentação esta manhã viu o triunfo! Mas eu não quero honras. Não me interessa ser chefe. Só quero partilhar o que descobri, mostrar a todos esses horizontes que estão à nossa frente." Avançou um passo.
— Fernão Gaivota — disse o Mais Velho — é chamado ao centro por vergonha aos olhos das gaivotas suas semelhantes!
Foi como se lhe batessem com uma tábua. Os joelhos enfraqueceram-lhe, um enorme rugido ensurdeceu-o. "Ser chamado ao centro por vergonha? Impossível! O triunfo! Eles não podem compreender! Estão errados, estão errados!"
— ... pela sua desastrada irresponsabilidade — entoava a voz solene —, por violar a dignidade e a tradição da família das gaivotas...
Ser chamado ao centro por vergonha significava que seria banido da sociedade das gaivotas, desterrado para uma vida solitária nos Penhascos Longínquos.
— ... um dia Fernão Capelo Gaivota aprenderá que a irresponsabilidade não compensa. A vida é o desconhecido e o desconhecível, mas não podemos esquecer que estamos neste mundo para comer e para nos mantermos vivos tanto quanto pudermos.
Uma gaivota nunca contesta o conselho do bando, mas a voz de Fernão ergueu-se gritando:
— Irresponsabilidade? Meus irmãos! Quem é mais responsável do que uma gaivota que descobre e desenvolve um significado, um propósito mais elevado na vida?
Passamos mil anos lutando por cabeças de peixe, mas agora temos uma razão para viver, para aprender, para descobrir, para sermos livres! Deem-se uma oportunidade, deixem-me mostrar-lhes o que descobri...
O bando mostrou-se impenetrável como a pedra.
— Quebrou-se a irmandade — entoaram em conjunto todas as gaivotas, e, em perfeito acordo, taparam solenemente os ouvidos e viraram-lhe as costas.
Fernão Gaivota passou o resto dos seus dias sozinho, mas voou muito além dos Penhascos Longínquos. A solidão não o entristecia. Entristecia-o que as outras gaivotas se tivessem recusado a acreditar na gloria do voo que as esperava. Recusaram-se a abrir os olhos e ver.
Aprendia cada vez mais. Aprendeu que um eficiente mergulho a grande velocidade lhe dava o peixe raro e saboroso que vivia três metros abaixo da superfície do mar. Já não precisava de barcos de pesca nem de pão duro para viver. Aprendeu a dormir no ar, estabelecendo um percurso noturno pelo vento do largo, cobrindo cento e cinquenta quilômetros desde o ocaso até a aurora. Utilizando o mesmo controle interior, voou através de nevoeiros cerrados e subiu acima deles para céus estonteantes de claridade... enquanto qualquer outra gaivota ficava em terra, conhecendo apenas neblina e chuva.
Aprendeu a dominar os altos ventos do continente e a jantar ali os delicados insetos.
O que outrora desejara para o bando tinha-o agora só para si. Aprendera a voar e não lamentava o preço que pagara por isso. Fernão Gaivota descobriu que o tédio, o medo e a ira são as razões por que a vida de uma gaivota é tão curta, e, sem isso a perturbar-lhe o pensamento, viveu de fato uma vida longa e feliz."

Deus abençoe você!
Álvaro Amorim.

Imagem: http://www.sxc.hu/photo/476177.
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