A vida eterna

      Antes de concluir agora esta série de artigos, é interessante, após todos esses posts, apresentar um conceito de Bioética:
     “Bioética é o estudo sistemático da conduta humana [ética] no âmbito das ciências da vida e da saúde [bio], enquanto essa conduta é examinada à luz de valores e princípios morais [ética].” (Enciclopédia de Bioética, vol. 1, introdução, W. T. Reich, editor responsável, 1978, in: Léo Pessini e Christian de Paul de Barchifontaine. Problemas atuais de Bioética. Edições Loyola, São Paulo, 2000, p. 32).
     Assim, vemos que a Bioética tem como objeto último a própria vida. Mas o que é a vida ? Seria somente esta vida aqui e agora ? A vida terminaria com a morte ?
     Diz a Santa Igreja, em seu Catecismo[1]:
     “1020. O cristão, que une a sua própria morte à de Jesus, encara a morte como chegada até junto dele, como entrada na vida eterna. A Igreja, depois de, pela última vez, ter pronunciado sobre o cristão moribundo as palavras de perdão da absolvição de Cristo e de, pela última vez, o ter marcado com uma unção fortificante e lhe ter dado Cristo, no Viático, como alimento para a viagem, fala-lhe com estas doces e confiantes palavras:
     Parte deste mundo, alma cristã, em nome de Deus Pai onipotente, que te criou, em nome de Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, que por ti sofreu, em nome do Espírito Santo, que sobre ti desceu; chegues hoje ao lugar da paz, e a tua morada seja no céu, junto de Deus, na companhia da Virgem Maria, Mãe de Deus, de São José e de todos os Anjos e Santos de Deus [...]. Confio-te ao Criador para que voltes àquele que te formou do pó da terra. Venham ao encontro de ti, que estás a partir desta vida, Santa Maria, os Anjos e todos os Santos [...]. Vejas o teu Redentor face a face e gozes da contemplação de Deus pelos séculos dos séculos.”
     Assim, na Eternidade, o Senhor Deus “enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição. Então o que está assentado no trono disse: Eis que eu renovo todas as coisas. Disse ainda: Escreve, porque estas palavras são fieis e verdadeiras. Novamente me disse: Está pronto! Eu sou o Alfa e o Ômega, o Começo e o Fim. A quem tem sede eu darei gratuitamente de beber da fonte da água viva. O vencedor herdará tudo isso; e eu serei seu Deus, e ele será meu filho.” (Ap 21, 4-7).
     Todos nós devemos, portanto, sem medo, ter esperança na Eternidade, pois desfrutaremos das delícias do Céu, viveremos para sempre em Deus!
     Viver hoje em Jesus Cristo, nossa esperança, imprime no cristão a certeza da felicidade eterna após a morte, dando-lhe traços distintivos em relação aos que não esperam em Deus.
     Obviamente, todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Portanto, a princípio, não se pode ver distinção entre as pessoas, sejam elas cristãs ou não. Todavia, como o barro na mão do oleiro, o cristão que vive da Esperança, Cristo, toma contornos de uma beleza singular, o que o destaca daqueles que se fecham ao acolhimento em suas vidas deste “tudo” de Deus, seu Filho amado.
     Quem vive de Cristo é como que liberto deste corpo de morte e consegue transcender ao Céu já aqui na terra; mesmo morando neste “vale de lágrimas”, vive o Céu, o que faz do cristão alguém diferente, alguém com sabor, com sabedoria, com “gosto” de sal nesta terra.
     O poeta Charles Péguy, ao definir esta graça, disse:
     “A esperança é o anseio de quem se candidata ao Eterno.”
     Pelas palavras do poeta, vê-se que a esperança é também um anseio, um desejo ardente por parte do cristão.
     Moysés Azevedo, ao encerrar o escrito Obra Nova, em seu parágrafo 12, referindo-se ao “novo” que Deus realiza em nós, fala que devemos ansiar por este “novo” e dar uma resposta concreta a Deus para que esta “obra” se concretize.
     Diz o Fundador da Comunidade Católica Shalom[2]:
     “Com nossos corações cheios de desejo, devemos responder dizendo: ‘Sim, Pai, não é fácil, mas eu desejo, eu quero, eu vou. Amém!’.”
     Ora, ao desejar este “novo”, ao ansiar por esta “obra nova” em nossas vidas, passamos a viver na Esperança, começamos a ultrapassar, pela graça de Deus, tudo o que nos impedia de viver o que Deus tem preparado para a nossa felicidade já aqui na terra, e começamos a permitir que o Senhor nos forme pessoas novas.
     A vivência desta graça forma mulheres e homens novos, distintos do ser humano que nada espera, que considera que a vida é apenas a da terra, que tem como ideal o “comamos e bebamos, pois amanhã morreremos!” (Is 22, 13c).
     Cria-se assim uma diferença nítida entre aqueles que vivem em Cristo e aqueles que só têm olhos para o aqui e o agora.
     Num mundo em que muitos “elaboram” sua própria fé, construindo-a a partir de si mesmos, de seus valores, de suas opiniões, de suas mentalidades e de suas vontades, o que mais parece com o fazer compras em um supermercado, onde se escolhe o que mais agrada e se rejeita o que não apetece; numa sociedade em que a caridade é banalizada e, às vezes, tida como assistencialismo de objetivo meramente narcisista, viver de esperança dignifica o homem e a mulher, eleva-os e os torna plenos.
     Ansiar pelo Eterno, desejar ardentemente Deus, candidatar-se ao Céu, longe de alienar o cristão das realidades temporais, torna-o alguém co-responsável pela felicidade dos outros, solidário ao homem e à mulher que sofrem, atento à maior necessidade do ser humano: o encontro pessoal com Jesus Cristo, nossa vida, nossa Paz!
     Em meio ao sofrimento, próprio da condição humana, a esperança remete o cristão ao Céu, retira seu olhar da morte, liberta-o dos grilhões da dor, faz com que ele ouça seu Deus, seu Pai, dizer: “Filho, tua morada é comigo, teu lugar é o Céu, teu repouso é o meu coração!”
     A esperança dá sentido a tudo, ajuda a viver os mistérios que ultrapassam a natureza humana e assim, como habilidoso escultor, modela um belo homem e uma bela mulher! Sustenta a fé, quando se enfrenta percalço na caminhada. Aperfeiçoa o amor, pois abre o olhar da alma ao essencial.
     Nossa esperança, que é Jesus Cristo, transforma a morte em vida, em vida eterna, em vida plenamente feliz, em vida em Deus, único desejo do coração do homem e da mulher.
     Por isso, todos nós, a Igreja — a Esposa de Cristo — celebraremos, um dia, por toda a Eternidade, nossas bodas com o Cordeiro imolado, Cristo ressuscitado que passou pela cruz.
     “Depois disso, ouvi no céu como que um imenso coro que cantava: Aleluia! A nosso Deus a salvação, a glória e o poder, porque os seus juízos são verdadeiros e justos. Ele executou a grande Prostituta que corrompia a terra com a sua prostituição, e pediu-lhe contas do sangue dos seus servos. Depois recomeçaram: Aleluia! Sua fumaça sobe pelos séculos dos séculos. Então os vinte e quatro Anciãos e os quatro Animais prostraram-se e adoraram a Deus que se assenta no trono, dizendo: Amém! Aleluia! Do trono saiu uma voz que dizia: Cantai ao nosso Deus, vós todos, seus servos que o temeis, pequenos e grandes. Nisto ouvi como que um imenso coro, sonoro como o ruído de grandes águas e como o ribombar de possantes trovões, que cantava: Aleluia! Eis que reina o Senhor, nosso Deus, o Dominador! Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe glória, porque se aproximam as núpcias do Cordeiro. Sua Esposa está preparada. Foi-lhe dado revestir-se de linho puríssimo e resplandecente. (Pois o linho são as boas obras dos santos.) Ele me diz, então: Escreve: Felizes os convidados para a ceia das núpcias do Cordeiro. Disse-me ainda: Estas são palavras autênticas de Deus.” (Ap 19, 1-9).
     Shalom!
     Álvaro Amorim.
     Consagrado na Comunidade Católica Shalom.

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[1] www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s2cap3_683-1065_po.html
[2] Moysés Azevedo. Escrito Obra Nova, 12
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2 Comentários:

vbragap comentou:

Caro Álvaro, eu tenho duas dúvidas com relação ao credo (creio em Deus Pai todo poderoso..), que são elas:
..subiu aos céus,..está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
Quando morremos, já não somos julgados e nossas almas vão para o céu, purgatório ou inferno? teremos outro julgamento na volta de Jesus? se não, quem são exatamente os mortos mencionados.

creio...na ressurreição da carne ...
O que realmente que dizer essa parte da oração? essa carne é o nosso corpo, ou o que é realmente?

Álvaro Amorim comentou:

Caro irmão,
Como este espaço é reduzido, peço-lhe que leia o Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 631 e seguintes, nos quais você encontrará também citações bíblicas que esclarecerão suas dúvidas.
Shalom!
Álvaro Amorim.
Consagrado na Comunidade Católica Shalom.

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