Dor e sofrimento humanos

     Nesta série de posts sobre Bioética, abordo algo tão misterioso, como desafiante para cada um de nós: a dor e o sofrimento.
     “Completo na minha carne — diz o apóstolo São Paulo, ao explicar o valor salvífico do sofrimento — o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja”[1] (Servo de Deus João Paulo II).
     A dor e o sofrimento são inerentes à condição humana. Como seres limitados e que possuem fraquezas, experimentamos essas provações a cada dia; “aquilo que nós exprimimos com a palavra “sofrimento” parece entender particularmente algo essencial à natureza humana. É algo tão profundo como o homem, precisamente porque manifesta, a seu modo, aquela profundidade que é própria do homem e, a seu modo, a supera. O sofrimento parece pertencer à transcendência do homem; é um daqueles pontos em que o homem está, em certo sentido, “destinado” a superar-se a si mesmo; e é chamado de modo misterioso a fazê-lo. [...] O sofrimento humano suscita compaixão, inspira também respeito e, a seu modo, intimida. Nele, efetivamente, está contida a grandeza de um mistério específico.”[2]
     O sofrimento humano não é apenas o decorrente da dor física, mas também é sofrimento moral, quando provém da dor da alma. Esta dor é espiritual. Em ambos os casos, a pessoa experimenta também a dimensão psíquica da dor.
     “A amplidão do sofrimento moral e a multiplicidade das suas formas não são menores do que as do sofrimento físico; mas, ao mesmo tempo, o primeiro apresenta-se como algo mais difícil de identificar e de ser atingido pela terapia.”[3]
     Poderíamos então perguntar: E por que o ser humano sofre ?
     Mais uma vez, ensina-nos o Servo de Deus João Paulo II:
     “O homem sofre por causa de um bem do qual não participa, do qual é, num certo sentido, excluído, ou do qual ele próprio se privou. Sofre em particular quando “deveria” ter participação num determinado bem — segundo a ordem normal das coisas — e não a tem.
     Por conseguinte, no conceito cristão, a realidade do sofrimento explica-se por meio do mal que, de certa maneira, está sempre em referência a um bem.”[4]
     Realmente, se alguém foi privado de alimento, que é um bem para o ser humano, sofre a fome. Se alguém se afastou de Deus, que é o Sumo Bem, sofre todas as consequências de estar longe daquele que o criou, que o salvou e que quer sua plena felicidade, o seu bem.
     Obviamente, Deus, que é amor (cf. I Jo 4, 8), jamais quis que o ser humano experimentasse algo mau, mas foi o pecado dos nossos primeiros pais que trouxe a morte ao homem e à mulher (cf. Gn 3, 19). Como diz São Paulo, ”o salário do pecado é a morte, enquanto o dom de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6, 23).
     Essa morte não é apenas o fim da vida terrena, mas são também as diversas “mortes” de cada dia: as dores e os sofrimentos.
     Há doutrinas que dizem que o que fazemos de mal retorna para nós nesta vida. Sofreríamos porque fizemos o mal. É como se fosse uma relação de causa e efeito. Portanto, quem fizesse o mal necessariamente “pagaria” em sua vida.
     Mas nós cristãos sabemos que não é assim. “Se é verdade que o sofrimento tem um sentido como castigo, quando ligado à culpa, já não é verdade que todo sofrimento seja consequência da culpa e tenha caráter de castigo. A figura do justo Jó é disso prova convincente no Antigo Testamento. A revelação, palavra do próprio Deus, põe o problema do sofrimento do homem inocente com toda a clareza: o sofrimento sem culpa. Jó não foi castigado; não havia razão para lhe ser infligida uma pena, não obstante ter sido submetido a uma duríssima prova. Da introdução do Livro deduz-se que Deus condescendeu com esta provação, em seguida à provocação de Satanás. [...] Se o Senhor permite que Jó seja provado com sofrimento, fá-lo para demonstrar a sua justiça. O sofrimento tem caráter de prova.
     O Livro de Jó não é a última palavra da Revelação sobre este tema. É um anúncio, de certo modo, da Paixão de Cristo. [...] O Livro de Jó põe, de modo perspicaz, a pergunta sobre o “porquê” do sofrimento; e mostra também que ele atinge o inocente, mas ainda não dá a solução ao problema. [...]
     Para descobrir o sentido profundo do sofrimento, seguindo a Palavra de Deus revelada, é preciso abrir-se amplamente ao sujeito humano com as suas múltiplas potencialidades. É preciso, sobretudo, acolher a luz da Revelação, não só porque ela exprime a ordem transcendente da justiça, mas também porque ilumina esta ordem com o amor, qual fonte definitiva de tudo o que existe. O amor é ainda a fonte mais plena para a resposta à pergunta acerca do sentido do sofrimento. Esta resposta foi dada por Deus ao homem, na Cruz de Jesus Cristo.”[5] Deus deu Jesus Cristo para que nós não perecêssemos (cf. Jo 3, 16). “O homem “perece” quando perde a “vida eterna”. O contrário da salvação não é, pois, somente o sofrimento temporal, qualquer sofrimento, mas o sofrimento definitivo: a perda da vida eterna, o ser repelido por Deus, a condenação. O Filho unigênito foi dado à humanidade para proteger o homem, antes de mais nada, deste mal definitivo e do sofrimento definitivo.”[6]
     Próximo post: a morte.
     Shalom!
     Álvaro Amorim.
     Consagrado na Comunidade Católica Shalom.

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Creative Commons License
[1] João Paulo II, Papa. O Sentido Cristão do Sofrimento Humano, Carta Apostólica “Salvifici Doloris”. Ed. Paulinas, São Paulo, 1988, parágrafo 1, p. 5
[2] João Paulo II, Papa. O Sentido Cristão do Sofrimento Humano, Carta Apostólica “Salvifici Doloris”. Ed. Paulinas, São Paulo, 1988, parágrafos 2-3, pp. 6-7
[3] João Paulo II, Papa. O Sentido Cristão do Sofrimento Humano, Carta Apostólica “Salvifici Doloris”. Ed. Paulinas, São Paulo, 1988, parágrafo 5, p. 10
[4] João Paulo II, Papa. O Sentido Cristão do Sofrimento Humano, Carta Apostólica “Salvifici Doloris”. Ed. Paulinas, São Paulo, 1988, parágrafo 7, pp. 13-14
[5] João Paulo II, Papa. O Sentido Cristão do Sofrimento Humano, Carta Apostólica “Salvifici Doloris”. Ed. Paulinas, São Paulo, 1988, parágrafos 11-13, pp. 20-22
[6] João Paulo II, Papa. O Sentido Cristão do Sofrimento Humano, Carta Apostólica “Salvifici Doloris”. Ed. Paulinas, São Paulo, 1988, parágrafos 14, p. 24
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4 Comentários:

Dasfran comentou:

Meu irmão o sofrimento, como diz um escritor secular é inevitavel mas continuar na dor é opcional,uma coisa q levo comigo q falo sempre as pessoas é o ocorrido no dia de Pentecoste, estavam todos no mesmo lugar, qdo veio do ceu a promessa do pai q é o Santo Espirito, com ruidos inefaveis e todos se encheram do Espirito de Deus e sairam a pregar,a evangelizar, fazendo curas e milagres em nome de Jesus,enfim eles não ficaram parados no sofrimento, na trizteza, neles mesmo, não... foram consolados, alimentados pelo Espirito Santo e sairam dos seus lugares q se encontravam parados, assim devemos ser, nos encher do Espirito Santo,dá graças a Deus pelo sofrimento pois assim nós somos configurados a Cristo Jesus e assim teremos a certeza como diz São Paulo,se eu morro com Cristo, eu ressucitarei com Cristo,então do sofrimento vamos dá uma direção: JESUS, ele recebe td e transforma em graça e td meu irmão fica mais fácil, mas leve qdo temos Deus no nosso coração,ele nos ajuda e qdo Maria nos aponta o caminho e nos envolve com seu amor nos ensinando o caminho do sofrer com amor e que nunca devemos nos cansar de clamar q Senhor fazei o nosso coração semelhante ao teu pra suportar toda humilhação,todo sofrimento, todo sentimento q é alheio a vontade do pai,somente com o coração de Deus seremos verdadeiramente fortes,livres e teremos a Paz
Deus te abençoe
SHALOM!

Álvaro Amorim comentou:

Querido Dasfran,
O sofrimento também tem uma bela dimensão de provação, como vemos no Livro de Jó.
Por tudo, louvemos ao Senhor, inclusive pelo sofrimento, que nos configura a Cristo, quando o acolhemos e permitimos que o Senhor opere em nós a salvação e, por meio de nós, nos irmãos.
Shalom!
Álvaro Amorim.
Consagrado na Comunidade Católica Shalom.

damiana comentou:

ola meu amigo Alvaro vc nao sabe o enorme prazer que tenho em poder sintonizar meu radio na shalom me sinto muito confortada com suas palavras fico feliz quando leio seus artigos no seu blogg e tambem quando recebo no meu email me sinto, muito feliz e amparada vcs ai da shalom sao minha familia aqui em Fortaleza pois minha familia e toda de brasilia e quando a saudade aperta o peito de alguma forma Deus fala comigo atraves de vcs e realmente isso me acalma e me sinto a pessoa mais amada do mundo por Deus.Amo todos vcs sem excessão de nenhum.Shalom do pai pra vc.

Álvaro Amorim comentou:

Querida Damiana,
Que bom saber que somos uma família, a família Shalom, eleita por Deus, que se reúne sempre ao redor da mesa do Senhor, na Santa Eucaristia!
Conte sempre com nossas orações!
Deus a abençoe sempre!
Shalom!
Álvaro Amorim.
Consagrado na Comunidade Católica Shalom.

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